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Chefe de Estado homenageia ancestrais do Reino do Kongo


“Ao realizar esta visita à província do Zaire, quisemos render uma homenagem aos Reis do Kongo neste local sagrado, onde nos encontramos e, isso, é respeito pela nossa cultura e tradição africana. Por esta razão, gostaríamos de agradecer aos ‘guardiões’ do antigo Reino do Kongo pela oportunidade que nos foi dada para podermos render esta homenagem”, disse João Lourenço, em breves declarações à imprensa em plenas ruínas do Kulumbimbi (Cemitério dos Antigos Reis do Kongo), depois do ritual tradicional de boas-vindas. 



À saída do aeroporto, uma multidão esperou pelo Presidente João Lourenço do lado de fora, para o aceno de boas-vindas. Mbanza Kongo parou, literalmente, para a recepção ao Presidente João Lourenço.



Escolas, igrejas e sociedade civil mobilizaram-se para as boas-vindas. E logo pela manhã, as ruas de Mbanza Kongo estavam apinhadas de grupos de pessoas em “procissão” ao aeroporto.



O avião presidencial fez-se à pista do aeroporto de Mbanza Kongo às 11h00. Do aeroporto, o Presidente caminhou lado a lado com o governador provincial. Ao longo do percurso do aeroporto ao Museu dos Reis, uma população ávida em ver o Presidente acenou, aplaudiu, gritou quase em choros de emoção. Mas, mais do que isso, via-se nas gentes de Mbanza Kongo a busca por amparo, numa cidade que tem tudo por construir.



No Museu dos Reis, o Chefe de Estado foi submetido a um ritual presidido pelo chefe da Corte Real do Kongo. O ritual tem o escopo de afastar maus agouros, abençoar a visita e livrá-la de quaisquer percalços. 

À entrada, todas as mulheres tiveram de trajar-se de panos africanos, simbolizando respeito ao local, proibido à entrada de mulheres vestidas de calças. “Estamos muito contentes e agradecemos o nosso Presidente por estar connosco. Hoje, é um dia muito importante. Toda Angola está aqui em Mban-za Kongo”, disse o chefe da Corte Real.



Carta à Corte Real



Em resposta a uma carta enviada pela chefia da Corte Real de Mbanza Kongo, João Lourenço acedeu. Se na carta, os membros da Corte Real expressaram, por escrito, as vicissitudes dos seis municípios da província, ontem o chefe da Corte Real falou perante o Chefe de Estado dos problemas que a província vive. Não mencionou os problemas um a um, mas deixou claro que existem problemas sociais e económicos por resolver com urgência. Como obriga a tradição, o Presidente levou uma oferta de bebidas e deixou valores simbólicos em envelope fechado.



“Nota-se que o Presidente foi criado dentro da nossa cultura e cresceu dentro de uma tradição. O Presidente deve ser abençoado porque anda a acompanhar a nossa tradição. Agradecemos imenso. 

Os ancestrais é que falaram e fomos avisados que estaria na província do Zaire”, disse o chefe da Corte, afirmando que o país está no bom caminho, embora os nossos filhos precisem de emprego, escolas e qualidade de vida.



“Temos fé que tudo isso vai ser resolvido”, disse João Lourenço.



Deslocação ao Kulumbimbi



Depois da sala nobre do Museu dos Reis, o Chefe de Estado seguiu para o local onde estão enterrados os ancestrais, o Kulumbimbi. Do Museu ao Kulumbimbi, mais uma vez, o Presidente caminhou à pé. O banho de multidão, mais uma vez, foi enorme. Era muita gente que foi necessária a criação, por jovens voluntários, de cordões de segurança.



No Kulumbimbi, a riqueza dos rituais puseram todos de sentido. Os membros da Corte Real, dispostos em círculo concêntrico e de joelhos diante do túmulo de D. Henrique III, (Nteyekengue - 1896 a 1901), apelaram à força do Espírito Santo, mas também dos ancestrais. 

“Apresentamo-nos junto de Vós e pedimos a bênção, sobretudo, para o Presidente da República, que tem o peso da Nação sobre si. Quase não dorme. A luta dele está também sobre aqueles que não trabalham”, evocou.



Diante da campa, os membros da Corte Real pediram aos ancestrais que cesse o sofrimento e que investidores instalem fábricas no Zaire. Pediram que os ancestrais protejam o Presidente em tudo o que fizer e onde quer que vá e que abençoem a Nação angolana e façam com que prevaleça a paz. 



“Não se esqueçam de nós. Vocês bebiam e comiam. Trouxemos-vos a N'zamba e a Cola”, disse o chefe da Corte Real, numa evocação aos ancestrais. 



De seguida, tiraram da cabaça um pouco de N'zamba, bebida tradicional e, por aspersão, lançaram-na, por igual, a todos os presentes no Kulumbimbi. Quem fosse tocado pela N'zamba tinha de levantar os dois braços em simultâneo, como símbolo de que também bebeu com os ancestrais. Depois do Kulumbimbi, João Lourenço foi à sede do Governo Provincial para um breve encontro com o governador Pedro Makita.



Zaire com quase tudo por fazer



O Presidente da República reuniu com membros do Governo Provincial do Zaire, dos quais auscultou as principais preocupações e possíveis soluções no curto e médio prazo.



No mesmo dia, na sede do Governo Provincial, ao iniciar a sua intervenção, o governador Pedro Makita fez uma caracterização minuciosa e exaustiva sobre a situação económica e social do Zaire, e fê-lo sem rodeios. 



Traçou o quadro da província tal como ela é. Das vias de comunicação aos problemas da falta gritante de água potável, da energia aos problemas vividos na produção agrícola e da saúde à educação.



Mas, o certo é que da caracterização da província do Zaire resulta que há quase tudo por ser feito na sede e nos seis municípios e 25 comunas e outras dezenas de aldeias, numa altura em que há até registo de abandono delas pela intransitabilidade das vias.



Por isso, ao intervir perante o Presidente da República, João Lourenço, e membros do Executivo, o governador considerou a ocasião adequada para expor os problemas e apontar possíveis soluções.



Entre o rol de preocupações, está a necessidade urgente de transferência do actual aeroporto de Mbanza Kongo para Kiende, a 30 quilómetros da cidade, tal como a remoção das antenas de rádio e televisão para zonas mais afastadas do centro histórico do município.



Ao apresentar a questão, na sede do governo provincial, Pedro Makita lembrou que estas são algumas das exigências da UNESCO para fazer prevalecer a elevação de Mbanza Kongo a Património da Humanidade.



Os locais para a transferência das antenas estão identificados e as obras do novo aeroporto devem ter início ou em finais deste ano ou em Maio do próximo ano, segundo fonte do Governo Provincial. As obras das estradas de Mbanza Kongo a Kuimba e de Mbanza Kongo a Nóqui, esta última estratégica na ligação de Angola à República Democrática do Congo, devem ser retomadas em breve.



Desafios da Educação



Sobre o sector da Educação, o governador Pedro Makita lembrou que foi registado um aumento de 9.668 alunos matriculados, elevando-o para um universo, neste ano lectivo, de 232.645 estudantes, assegurados por 4.181 professores. 



De acordo com dados estatísticos, disse, a província precisa de mais 755 salas de aula para cobrir as necessidades no ensino primário e no segundo ciclo, num momento em que a rede escolar é composta, no Zaire, por 313 escolas.



“A finalização destes equipamentos sociais e os outros, que muita falta nos fazem para a formação do novo homem e com nova visão, vai receber o alento do Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM)”, disse Pedro Makita, para quem a desanexação da Universidade 11 de Novembro, com sede em Cabinda, e das instituições que ministram o Ensino Superior, foi e tem sido muito aplaudida.



Os pólos universitários de Mbanza Kongo e do Soyo carecem de obras de reabilitação, mas também de abertura de novas áreas do saber e laboratórios. Para Pedro Makita, a promoção do empreendedorismo passa pelo reforço do ensino técnico-profissional para atender os jovens que clamam pelo primeiro emprego.



Casos de malária



O governador falou da malária. Pedro Makita lembrou que a doença, com as suas várias formas de manifestação, continua a liderar os casos de doenças, seguidos das diarreicas agudas.



Mas não deixou de parte os traumatismos por acidentes de viação, que marcaram os indicadores hospitalares e sufocam os gastos por elevadas taxas hospitalares, como a média de estadia, o índice de rotação e substituição. “É notório o aumento de doenças crónicas não transmissíveis, nomeadamente a hipertensão arterial, diabetes”, explicou Pedro Makita.



Para o governador, apesar de a rede sanitária do Zaire estar composta por 97 unidades funcionais, designadamente um hospital geral de nível secundário, seis hospitais municipais, 29 centros de saúde, uma maternidade no município do Nóqui, três centros materno-infantis e 57 postos de saúde, existem ainda muitos problemas, principalmente os ligados com a necessidade de reabilitação.



Sobre o triste drama de abandono de aldeias, o governador lembrou que se têm envidado esforços para estabelecer a ligação entre as localidades de Nfunde e Mandiba para evitar que tal continue a ocorrer, com maior realce para a Serra da Banda, devido à intransitabilidade das vias.



Para abrir a via Cabeça de Cobra a Quelo, o governador lembrou que foi possível conseguir em Luanda uma ponte que aguarda pela montagem no rio Lukulo, no Soyo.



Pedro Makita congratulou-se com o facto de ter sido reabilitado o Ciclo Combinado do Soyo e pela conclusão do processo de electrificação do município. Depois do Soyo, disse, seguem-se os municípios do Nzeto, Mbanza Kongo e Kuimba.



Obras estão por concluir no Hospital Geral do Zaire



Relativamente à reabilitação do Hospital Geral do Zaire, paralisado há quase três anos, o governador realçou que, pelo contributo que vai prestar à província e à região, a formação de técnicos do ramo, a salvaguarda do investimento, há que evitar a degradação do equipamento já importado e outros já instalados em alguns projectos.



Pedro Makita solicita a retoma das obras de construção do Hospital Geral do Zaire. Mas, a “súplica” para a conclusão das obras também contempla o Hospital Municipal do Kuimba, do Hospital Municipal e Centro Materno-Infantil do Nzeto, o Centro Materno-Infantil do Tomboco e a obra da Maternidade do Nzeto, parcialmente concluída.



O Hospital Municipal do Soyo aguarda por reabilitação da sua parte velha pelo projecto Angola LNG, no quadro da sua responsabilidade social. Ainda neste âmbito, disse, e com a previsão de ter início este ano, foram identificados outros projectos sociais e em outros municípios, para serem financiados pela Angola LNG.



O governador disse que, de concreto, grande parte das unidades sanitárias clamam por reabilitação geral. O capital humano especializado em Medicina e outras valências da Saúde constitui preocupação.



Pedro Makita mostrou-se preocupado com o facto dos serviços especializados serem suportados por médicos estrangeiros. O Hospital Municipal do Soyo, do Nzeto e o de Mbanza Kongo contam apenas com um pediatra cubano. Os hospitais de Tomboco, Kuimba e Nóqui contam apenas com médicos de clínica geral.



O governador lembrou que o Hospital do Soyo conta apenas com médicos da cooperação russa, actualmente a exercerem as suas funções com pouca dedicação por falta de pagamento de ordenados, e muitos já regressaram para o seu país.



Numa longa caracterização da província, Pedro Makita denunciou o facto de existirem técnicos que ingressam por via de concurso público no sector da Saúde, mas que depois da obtenção do vínculo de pessoal do quadro acabam por abandonar a província mediante solicitação de transferência, evocando razões várias.



Água potável e estradas



O governador anunciou que está para breve a instalação de um novo sistema de captação, tratamento e distribuição de água potável, com a conclusão das obras do investimento do Ministério de tutela.



“Não esquecemos de solicitar o vosso apoio pela conclusão das obras de Tomboco e da Mussera, ampliação e reabilitação dos sistemas do Soyo e Nzeto e a construção de sistemas que fornecem água potável aos municípios do Nóqui e Kuimba”, disse.



Relativamente às estradas, lembrou que a reabilitação dos troços Mbanza Kongo a Nzeto, Caxito a Nzeto e ultimamente Nzeto a Soyo aliviaram o sofrimento dos munícipes nas estradas da província. Mas, a outra faixa da estrada Nzeto a Soyo e a conexão à ponte sobre o rio Mbridje está por se concluir.



“O sofrimento e amargura prevalecem nas picadas do Loge a Quibala Norte, do Nzeto a Kindege, do Tomboco a Mpala, do Mangue Grande a Pedra do Feitiço, da Cabeça da Cobra ao Quelo, do Soyo a Benza, do Kuimba à Serra da Canda, de Kiende a Kaluka, de Mbanza Kongo a Mandimba, cuja obra conheceu outra validação, de Kuimba a Mbuela, de Kuimba à Serra da Banda e de Kuimba a Lufunde, entre outras”, apontou.



Pedro Makita apontou também como preocupante o troço Mbanza Kongo a Nóqui, passando pela insegura ponte sobre o rio Mponzo.



“São muitos camiões que por ali passam com muito risco, transportando carga em contentores para a província de Cabinda por via de Matadi, Boma e Mwanda (República Democrática do Congo) ”, disse o governador, acrescentando que “foi por nós reposta a livre circulação de pessoas e bens entre os municípios de Kuimba, Zaire e Maquela do Zombo, no Uíge, com a montagem da ponte sobre o rio Lwani”.



Jornal de Angola